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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Filho do Nada


 

Tu, dono das carcaças corroídas espalhadas em torno de teu caminhar

Acrescentai piedade ao rol de tuas incapacidades! Cuidai manter o teu olhar fundo ao longe, no horizonte interminável

Vertei sangue das jugulares de teus inimigos, sem esforço, esgotai os limites sem perceber os seus olhares aterrorizados e insisti em reforçar os teus comportamentos aterrorizantes

Sim, filho do nada, estendei a tua capa escura como instrumento para encampar todo o azul de uma só vez, imiscuindo horror indiscriminadamente!

Eles não sabem de si! Eles não sabem de ti! Naturalmente irrisórios, atribuirão a ti mais poderes do que os tem, então certifica-te de que os seus assombros aumentem a cada ciclo e acreditem piamente na própria incapacidade de lutar, e defender-se jamais será opção

Sim, tu, filho do agonizante, carregas consigo uma aura de destruição que exterminará qualquer poesia no âmago

E, paradoxalmente serás, tu mesmo, poesia inigualável, comunicando através do não-verbal, pensamentos entranhados profundamente em cada um desses seres desprovidos de valor

A dor... Ah, a dor é incalculável, embora permaneça como o menor dos problemas. O real problema é o início. Do fim.

 


                        Marcelo Gomes Melo

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A navalha


 

        A navalha não tem humor, não importa o que se pense a respeito de quem a esteja usando. Normalmente quem precisa equilibrar-se todos os dias em seu fio vai pegando o jeito, ficando um pouco mais experiente, recebendo menos cortes, não fatais, embora não escapem das dores nem das cicatrizes.

        O povo do século que definha passado um quarto de seu tempo, não parece exercitar a percepção, deixem-se levar pelo vazio existencial, não sorriem com propósito, não sofrem com o romantismo, simplesmente vagueiam, inúteis, manipulados e soterrados no meio de escombros sombrios, os quais deterioram o seu viver absolutamente.

A paz é frágil e a resiliência se afasta. O que é triste e ruim cobra o seu preço diariamente; o fogo se alastra pelos edifícios, os gritos das pessoas desesperadas se confundem com os berros das vítimas desavisadas, tudo é terror na terra dos exilados, no planeta que expurga os seus visitantes indesejados através da destruição completa.

A natureza é eterna e recicla a si mesma. Os visitantes temporários não perceberam que serão exterminados pela própria incapacidade de viver em comunhão com o sagrado. O extermínio é tudo o que conhecerão. É tudo o que viverão. Serão os últimos momentos do caos.


 

                    Marcelo Gomes Melo 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ela e as flores


 

Falar sobre ela é falar sobre a textura das flores

O perfume que exalam, e os espinhos que a protegem

Pensar nela é sentir o aroma e usar todos os sentidos

Para trazê-la para perto

Cultivá-la com luz solar, ar, mar e amar

Ela é solo fértil para os devaneios mais insanos

Os sabores mais distintos, sopro de vida em um

Coração cansado

Falar sobre ela é possuí-la por todo o tempo

Em um mundo inquieto e perigoso

Ela é um jardim


              Marcelo Gomes Melo

 

Filho do Nada

  Tu, dono das carcaças corroídas espalhadas em torno de teu caminhar Acrescentai piedade ao rol de tuas incapacidades! Cuidai manter o ...