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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

A vida secreta dos seres noturnos


 

             A vida secreta dos seres noturnos

          As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos, diferentes dos das pessoas diurnas, aquelas sempre dispostas a sorrir para esconder os seus terrores, enganando antes de tudo a si mesmas, vendendo atitudes anormais como se fossem padrão, defendendo pontos de vista os quais não necessariamente acreditam só para obterem a sensação de que participam da panela maior em que todos concordam com o óbvio e se martirizam escondido em nome de um status quo sem muita importância em um mundo que atravessa um período de transição gigantesco.

        À noite a percepção fica mais aguçada sob o signo do silêncio, e os enganos mais vívidos, o cinismo é aceito e a ironia é uma arma pacífica que causa estragos e determina rumos diferentes dos escolhidos pelos acomodados, os que preferem fazer parte da grande máquina que devora pessoas e as hipnotiza de forma a tomarem decisões abruptas e desesperadoras, que os prejudicará a longo prazo, mas oferece uma falsa sensação de segurança, embora estejam sendo manipuladas constantemente.

        Os seres noturnos contestam a tudo; a eles mesmos e aos que os cerca; sofrem por isso, radicalizam a existência e nem sempre sobrevivem à verdade nua e crua, virando estatística fria, sem que ninguém saiba o porquê de flertarem com o abismo obsessivamente até que sejam derrotados.

        Não escapam impunemente porque conhecem mais o que se esconde por trás dos corações humanos, a necessidade que os obriga a trair os pactos de honra e ainda dormir o sono dos justos. Não há justiça! Há portos nem sempre seguros que desafiam o tempo todo àqueles que escolhem viajar, conhecer e silenciar, surpresos e ao mesmo tempo inquietos, rebelando-se contra a imensa maioria de ovelhas que caminham para o abate todos os dias, aparentemente felizes com a ignorância com a qual são brindadas, e que é bondosa porque não os permite perceber a realidade de suas vidas vazias, com falsas perspectivas, nulas, repetitivas.

        Nesse ponto se igualam. O destino é o mesmo, mas os que vivem à noite sofrem mais por saberem mais, privados da bondade que é viver no escuro sem enxergar a escuridão que os cerca, a ladeira que os guia a um final indeterminado e incerto. Bois a caminho do matadouro.

        Os noturnos acabam da mesma forma, não há vantagem nenhuma em perceber a matrix, além de causar um fim mais sangrento e assustador para cada um dos despertos.


 

                              Marcelo Gomes Melo

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A razão pela qual as mulheres escolhem os melhores filmes


 

A razão pela qual as mulheres escolhem os melhores filmes

O relógio na parede nos enganava marcando três e cinco da madrugada. A janela da cozinha, quebrada, fazia o vento sibilar e alguns pingos de chuva molhavam a pia e uma pequena parte do chão.

Na sala, oculto na semi escuridão, lamber o sangue viscoso, vermelho, nojento e malcheiroso parecia tão assustador quanto realmente era. Um escorregar da língua na lâmina e não mais seria possível confessar oralmente. Se os olhos se desviassem para a mão enorme que agarrava a arma branca como se fosse a um bebê recém-nascido, eram visíveis as unhas longas e maltratadas, sujas de sangue escuro. Mãos más, como os olhos frios e sem sombra de vida.

O tique-taque do relógio e o barulho do vento e da chuva eram a sinfonia perfeita para que as mortes continuassem. No chão, aos pés da enorme figura, o corpo decapitado parecia uma boneca de pano, observado pela cabeça ensanguentada de rosto contorcido ao qual pertencia. Observado é modo de dizer, os olhos estavam furados, a cabeleira loira ensopada por ter sido batida diversas vezes com violência contra a parede antes de ser separada do corpo.

O cheiro de morte no ar era convidativo, significava que diversas outras ainda aconteceriam em breve. O casal crispou as mãos, suando como porcos em uma sauna, os corações saltando desesperados. A antecipação à chacina quase os fazia morrer antes. O medo podia causar reações inesperadas. Suicidar-se para não ser assassinado, por exemplo.

O som de passos abafados e olhos esbugalhados, aquele arrepio na nuca e dificuldade para respirar... O silêncio antes da inundação de berros, gritos histéricos implorando por perdão, golpes de faca, ranger de dentes, o olhar alucinado da enorme figura fazia a combinação perfeita para o sorriso vermelho de dentes gigantes, salientes. O ódio e o terror misturados causavam reações impossíveis de ignorar.

A ceifada geral fazia os espectadores engasgar com pipoca, derrubar o refrigerante e distribuir sorrisos nervosos até o final do filme.

O casal saiu de mãos dadas do cinema, sorrindo amarelo, sem terem trocado sequer um beijo durante duas horas de horror! O rapaz pensando arrependido pela péssima escolha que fizera do filme, que não o permitira realizar o desejo imediato que era o de bolinar a garota de todo jeito, beijar muito no escurinho do cinema. Ela, da mesma forma, silenciosamente o amaldiçoava e se sentia tola ao ponto de permitir que o tapado escolhesse o filme.

Essa é a razão pela qual as mulheres escolhem muito melhor o filme para o primeiro encontro! Concorde, imbecil, você não vai ter que assistir quase nada mesmo!

 


                    Marcelo Gomes Melo

sábado, 29 de julho de 2023

A influência psicológica para o bem e para o mal


 

        A influência psicológica para o bem e para o mal

       Saiu armado pela primeira vez na vida. Antes caminhava encurvado, cabeça baixa, olhos fixos no chão, as mãos nos bolsos, trôpego e hesitante. Também não ousava erguer a voz, gaguejava e nunca contra argumentava com ninguém a respeito de nada.

          Esse cidadão invisível mal era notado quando chamava o garçom em um bar, um táxi, ou na fila do pão. Quando uma mulher se dirigia a ele jamais era por interesse na pessoa suada e trêmula, mas em alguma informação ou para usá-lo como empregado, fazendo favores que jamais recebiam agradecimento.

          Então ganhou de um amigo a arma. Um 38 no cano curto que, segundo o parceiro iria mudar a sua vida. Incutiria confiança e aumentaria a autoestima, tornando-o um outro homem.

          Agora, com a arma na cintura, estava com as sobrancelhas franzidas, o olhar aterrador e incisivo que atacava o mundo com agressividade e um andar firme, como se estivesse marchando. A voz engrossara e estava segura, fácil de ouvir, e as palavras proferidas estavam muito mais claras, o poder de convencer aumentara em mil por cento!

          Imediatamente passou a abordar mulheres com gentileza e bom gosto. Conseguia convidá-las para um chá ou uma cerveja, e após o jantar tinha firmeza de propósito para terminar a noite em um motel ou até na casa da escolhida.

          Passou a contestar educadamente as decisões do chefe, e demonstrar através de exemplos as soluções corretas, o caminho a seguir. Conseguiu aumento e promoção, a vida mudou rapidamente e para melhor.

          Em contrapartida ele nunca mais largou o revólver. O carregava para todos os lugares, dormia com ele, tomava banho com ele. Cuidava da arma como se fosse um filho, limpava, beijava, ninava e conversava com ela. Planejava construir um altar para ela no quarto, e inserir uma foto do amigo que o presenteara com a coisa mais útil de sua vida. O produto que o transformara em homem de verdade.

          Marcou palestras de autoajuda para homens como ele, defendendo a arma como a ferramenta mais poderosa de masculinização do ser humano, incluindo transsexuais. Bradava cheio de si, convencia através do exemplo e se orgulhava de libertar muitos coitados sub-humanos como ele. Cogitava abrir uma igreja para ampliar os benefícios pelo mundo.

          Um dia, após o sexo com a mulher com quem se relacionava no momento, fumavam um cigarro tranquilamente, relaxados, quando ela, casualmente comentou:

          - Eu acho um charme esse seu revólver de brinquedo! Parece até verdadeiro, embora seja de plástico. Um homem gentil e pacífico como você fica uma gracinha carregando uma arma de plástico para lá e para cá. O meu sobrinho de sete anos tem uma igual.

          Os olhos dele quase saíram das órbitas. Os cabelos se eriçaram e começo a tremer incontrolavelmente. A voz não saía. Fitava a ferramenta de cancelar cpf sem acreditar que não servia para nada! Vomitou barulhentamente sem ter nada para colocar para fora.

          Assustada, a mulher ligou para a emergência e fugiu, com medo daquele farrapo humano totalmente diferente do cara que conhecera.

          Quando a ambulância chegou, a porta do quarto estava trancada e ele não respondia. Ao derrubarem a porta encontraram-no em um canto encolhido, posição fetal, chupando o polegar. Nunca mais foi o mesmo novamente.


 

                                  Marcelo Gomes Melo

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...