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terça-feira, 13 de junho de 2023

A namorada do criminoso


                    A namorada do criminoso

     

          A namorada do criminoso é bela como um entardecer na praia, com seus modos jeitosos e olhares convincentes. Os seus passos tão leves a levam à caverna em que o criminoso se esconde, e então ela derrama sobre ele as bênçãos de uma mulher iluminada.

          A garota do criminoso fala como uma escolhida, de voz aveludada, com o olhar baixo o suficiente para denotar submissão, mas o queixo erguido o suficiente para demonstrar superioridade nata, não forçada. Ela costuma passar incólume por entre os ratos que habitam a caverna do criminoso, dividem com ele o lar e a escuridão. Ela jamais reclama, parece não os ver por lá, roendo restos das refeições que entrega religiosamente ao namorado diariamente.

          Disso o criminoso não pode ser acusado; não dividir suas rações com os companheiros ratos e demais seres rastejantes que parecem não assustar a princesa flutuante que é sua musa. Ela tem o dom de envolver a carapaça dura e fria do criminoso com suavidade e amor, e controlar com a respiração os instintos mais mortais da criatura.

          A mulher do criminoso não o teme. Não teme, também, os algozes que o perseguem, nem os juízes que o julgam, ou os curiosos que o acusam; ignora aos covardes que o incriminam ao mesmo tempo em que o temem. Ou o incriminam porque temem.

          A namorada do criminoso sorri bondosamente a seu tempo, distribuindo pílulas de amor como milho aos pombos da praça, nocivos pela inutilidade da existência atual, embora extremamente ativos na antiguidade, mensageiros de boas novas e segredos tétricos.

          Ela parece pairar acima de todos os outros seres, e o fato de namorar o criminoso aumenta ainda mais o respeito com que lhe tratam a escória, e também a elite. Só há elogios para suas atitudes e paixão platônica para sua pessoa, já que ninguém ousaria tirá-la do criminoso; não por temê-lo, mas por saber que o amor dela era intransponível, intransferível e eterno. Ninguém jamais poderia competir com o criminoso, cujas boas referências desconheciam, muito menos a capacidade dele de amar, mas por ela ser a perfeição sobre duas belas pernas, exalando perfume francês e ajudando a todos, crentes ou descrentes sem discriminação. Aliás, como poderia? Era a namorada do criminoso!

          A namorada do criminoso desfrutava de um status absurdamente elevado, sem almejar nada daquilo em momento algum; ou exatamente por não almejar tanta influência. Namorá-la tornava o criminoso, aos olhos dos outros, alguém com um resquício de alma, digno de habitar as profundezas sem ser definitivamente eliminado da vida em sociedade.

          O criminoso deveria agradecer a cada momento pela existência de tão bela criatura que o amava incondicionalmente e acalmava a fera contundente e aterrorizante que ele era desde que nascera; deveria saber que ela era o único anteparo entre ele e o inferno em chamas, e sua luz para o caminho inacabável e escuro da redenção.

          Todos amavam a mulher do criminoso. As mais jovens sonhavam imitá-la na postura, na beleza e na bondade, embora não quisessem nenhum criminoso como marido; as mais velhas adoravam a sua devoção humilde, a sua disposição com o namorado, a sua atuação como pacificadora implorando perdão a Deus pelos crimes do desastre que era o seu homem.

          Os homens jovens a olhavam com ardor apaixonado, sem ousar dirigir-lhe a palavra, mas todos a homenageavam em seus quartos, à noite, com uma mistura de medo e prazer. Medo e vergonha de que suas mães descobrissem, e pavor indescritível de que o criminoso soubesse! Os mais velhos a cumprimentavam com seus olhares lascivos e sorrisos falsos, escondendo atrás do respeito excessivo seus desejos mais nojentos.

          Era unanimidade, a namorada do criminoso. Principalmente quando chegava ao Banco após a visita ao seu homem e abria a sacola cheia de dinheiro, depositando 80% em sua conta secreta e o restante na conta conjunta com o seu namorado. Os gerentes sorriam, babavam e tremiam, hipnotizados por tanta beleza e tanto dinheiro vivo! Os banqueiros tiravam os chapéus e ofereciam café e licor, quem sabe um jantar ao anoitecer, mas ela recusava docemente e se recolhia, tranquila, para preparar-se em seus aposentos para uma nova caminhada ao amanhecer em direção à caverna.

          Todos ouviam as notas divinas do piano, tarde da noite, vindas do quarto da figura atraente e superior, e imaginavam com inveja, comovidos, como alguém poderia ser assim abençoada com tantos predicados. Após a peça bem tocada ao piano, a namorada do criminoso recolhia os anéis de ouro que jaziam sobre o instrumento e os recolocava em seus dedos finos e elegantes. Então retirava o peignoir e dormia o sono dos justos em sua alcova macia e gigantesca, sem pensar na caverna em que o criminoso, de olhos arregalados, abraçava o próprio corpo para diminuir o frio e tentava sobreviver uma noite mais.

 

                                  Marcelo Gomes Melo

sábado, 10 de junho de 2023

A barca dos sofrimentos


                     A barca dos sofrimentos

Tudo me lembra você!

Cores, perfumes, sons

Até o vazio no entorno

Nesse mundo havia alguém

E agora anda invisível no inóspito

A incapacidade de mudar isso é surreal

Porque há uma conspiração do meu corpo,

Da minha alma, em favor do que acontece

Tudo é sinônimo de muito pouco, afinal

A ineficiência toma conta e se espalha

Como erva daninha

Uma explosão nuclear combinada

E agora? Qual é o procedimento padrão?

 

        Marcelo Gomes Melo

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Amor hediondo


 

                                  Amor hediondo

 

Aqui, em pé sobre o seu sepulcro, observo o ambiente arejado entre as montanhas de pedras centenárias e árvores milenares, por entre as quais correm as águas límpidas do rio essencial, frio e audaz, superando obstáculos com a sua força estupenda despencando em cachoeiras monumentais, as que celebram todas as dores e jamais questionam os porquês.

As flores ao redor parecem assistir, maravilhadas, o local de sua queda, tão glamourosas o quanto podem até murchar. Assim que acontecer, naturalmente darão lugar a outras belas flores que em seu tempo de existência, embevecidas, servirão de escolta ao seu túmulo gelado e sombrio, habitação sinistra para alguém tão vivaz quanto vossa magnificência, senhora dos pecadores, o ímã que atraiu os mais valentes e ferozes cavaleiros para a morte, com um balançar de quadris equivalente ao canto das sereias.

Apoiado na empunhadura de minha espada, com a ponta equilibrada sobre a pedra antiga de sua sepultura, deixo a mente vagar em busca de esquecimento, senhora dos amores profundos, comandante do juízo dos homens, produtora contumaz de insensatez suficiente para alijar tropas inteiras do combate, as enviando para um deserto de sentimentos, transformando homens em bestas feras.

Como é fugaz a paixão, imperdoável quando usada como uma lâmina afiada nas mãos de um profissional insensato e cruel. Deslindar os seus segredos me foi ordenado, senhora os seios fartos e olhares cálidos. Preparado tanto quanto um ser humano de pedra, com o pensamento treinado por tempos e tempos para não se atingido por nada perfumado e suave, macio e quente, concentrado apenas no objetivo a mim confiado durante os treinos nas masmorras santas da colina dos imortais, sob os umbrais dos anjos muitas vezes imaginei como seria, mas passou longe do melhor que pude fazer! Não se imagina a beleza insana de uma mulher fenomenal e selvagem, quase uma divindade.

Quase nada pude fazer, atingido pelo primeiro sussurro que era sua voz como um dardo tranquilizante, ao mesmo tempo em que fazia formigar todo o meu corpo por um desejo incapaz de conter-se!

A minha respiração se alterou e a força das minhas convicções se abalaram instantaneamente, senhora dos pensamentos impuros de todos os pecadores e santos. Como um boneco me vi sob o seu encanto, que imediatamente produziu borboletas em meu estômago. Por cem dias e cem noites vivi como presa entre os braços de uma caçadora fulminante! Amar e amar virou um mantra ordenado pelos seus desejos, que realizados quase me assassinavam de prazer! Eu, o cavaleiro melhor preparado, o mais forte e inabalável, virei um a mais de seus súditos. Em determinado momento, no meio dos seus beijos, com o seu corpo em minha posse cheguei a duvidar da razão!

Tremendo como uma criança sob a neve quase abandonei o propósito de salvaguardar o mundo como o último templo, devorado deliciosamente pela sua gula suave e falsamente gentil.

No último momento, entretanto, senhora dos enganos mortais, busquei no fundo da alma toda a determinação a qual um homem pode ter com os seus deveres, e com os dentes trincados finquei o punhal prateado em seu peito a centímetros do meu.

Não há arrependimento no homem destinado a se tornar uma lenda, senhora das paixões permanentes. Hoje, em pé sobre o seu túmulo, sei disso mais do que os que por você pereceram, vítimas do seu hediondo amor. Você foi, mas permanecerá para sempre em mim.


 

                            Marcelo Gomes Melo

A navalha

            A navalha não tem humor, não importa o que se pense a respeito de quem a esteja usando. Normalmente quem precisa equilibrar-se...